Entrevista | Thina, psicopedagoga do Colégio Dom, comenta a relação entre saúde mental e estudos. Qual é o momento de buscar ajuda?
“Meu sono tá prejudicado, as minhas relações estão prejudicadas, eu não consigo mais estudar como eu estudava antes” o que fazer ? Thina aconselha.
Por Matheus Simões - C1, Colégio Dom, InformaDom — Olinda
24/09/2026

Professora de projeto de vida e psicopedagoga, Waldja Cristina (Thina), reflete, em entrevista ao Jornal InformaDom, sobre a relação entre os estudos e a saúde mental dos jovens do ensino médio. Na conversa, ela aborda os desafios enfrentados tanto pelos alunos em período pré-vestibular quanto por aqueles que ingressam no ensino médio neste ano, além de destacar a função do SOE na estrutura do colégio. A entrevista também reúne uma série de orientações para pais e alunos, com o objetivo de promover um equilíbrio saudável entre a vida acadêmica e o desenvolvimento socioemocional.
Matheus Simões (InformaDom) : Então, como o jornal tá chegando agora, queriamos introduzir o cuidado que você tem com os alunos para quem tá conhecendo o colégio agora ou não tem contato com o SOE, quem for ler o jornal, para poder chegar aqui sabendo que sua porta tá aberta para poder ter esse tipo de contato. Então a gente queria perguntar, primeiramente, de que maneira a preparação pro vestibular pode afetar a saúde mental dos adolescentes?
Thina : É, quando o adolescente chega nessa última fase desse ciclo, de estudos e da vida dele, porque não é só de estudo, é da vida dele também, né? Ele vai fechar um ciclo e outro vai se abrir pra vida adulta . Então, geralmente eles sofrem muito a nível emocional . Por quê? Porque tem uma pressão. Aí às vezes os pais falam: "Não, mas a gente não pressiona” não precisa, porque pressão já tem de todos os lados. Tem a pressão que os colegas fazem, os professores fazem, fazem no bom sentido, querendo que eles fiquem preparados, que eles deem conta, que eles cheguem bem nessa etapa, né? Não é a pressão para que eles fiquem mal, mas para que eles cumpram e cheguem onde eles precisam chegar. E uma pressão da própria mídia, o vestibular e tal. Então, tudo isso, faz com que a pessoa eleve seu grau de ansiedade e outra, a própria pressão interna: "será que eu vou conseguir?", "será que eu vou decepcionar a minha mãe, o meu pai, a minha família?", "será que eu vou ser capaz?". Então, a gente mexe no lugar muito delicado de cada um de nós... Outra vez eu fiz uma pesquisa aqui na escola com o pessoal do fundamental dois e eles disseram que era o julgamento do outro que afeta, né? Então, o julgamento faz com que a gente fique tenso, que a gente tenha medo de se expor. E o vestibular é isso também, é você entrar numa competição, e depois vai ter um resultado.
"...Às vezes os pais falam: "Não, mas a gente não pressiona” não precisa, porque pressão já tem de todos os lados."
Matheus Simões (InformaDom) : E falando sobre esse resultado, o Dom ele é referência vestibular no Enem aqui em Olinda. Então em um colégio de alto desempenho, assim, como você acha que essa pressão específica relacionada às expectativas de aprovação podem mexer com a mente de um estudante, essa preparação pro vestibular e de se sentir, de fato, pronto para encarar a vida?
Thina : É mais um, vamos dizer, um peso na mente do adolescente. Ele tem que dar conta de inúmeras coisas e ele tem que ser bom em tudo. Ele sente que não pode ser de forma mediana ou um pouquinho bom, ele tem que ser bom em tudo, ele tem que passar. Então essa pressão é que faz mal, porque às vezes o aluno ele tá preparado a nível pedagógico, tecnicamente falando, ele tá preparado, mas a pressão é tanta que quando chega na hora de executar a prova, ele não consegue porque ele entra num estágio de alerta, a mente dele está super, vamos dizer assim, aquecida . Aí acontece o grande medo dos adolescentes, que é o famoso “branco”. Não é porque não estava preparado, é porque a pressão, né, foi gigantesca para ele.
Matheus Simões (InformaDom) : E como essa pressão costuma se manifestar no dia a dia do aluno, tipo sinais que outros colegas podem reparar para tentar auxiliar esse aluno?
Thina : É uma coisa que muda muito na rotina do adolescente. Por exemplo, você tá percebendo que ele tá mais irritado, o comportamento dele tá mais impaciente, ele não tá mais aquela pessoa que conversava ou ele tá dormindo na escola, coisa que ele não fazia antes, porque talvez ele esteja sem dormir já em casa por excesso de preocupação. Existe algo que a gente chama de pensamento em cascata, ou seja, na hora que eu vou dormir, a minha mente tá tão agitada que eu não consigo acalmar essa mente. Eu não consigo decantar os pensamentos do dia. Tá tudo girando ao mesmo tempo. Quando eu vejo já é quase de madrugada e eu não durmo. Ou seja, os eventos da própria vida, né, eles vão decair na qualidade. Meu sono tá prejudicado, as minhas relações estão prejudicadas, eu não consigo mais estudar como eu estudava antes, porque eu não tenho mais aquela paciência... meu rendimento vai caindo.
Matheus Simões (InformaDom) : Que recomendação você daria pros nossos leitores, tanto pais quanto alunos, quanto professores, de lidar com essas pessoas que estão passando por isso?
Thina : Aí você tocou no ponto muito importante que são os pais, tá? Os pais eles podem ajudar bastante nessa questão. Primeiro que entra algo muito delicado, que são os pais que já entram na pressão querendo que o filho escolha no vestibular o curso que eles querem, não que o filho gostaria. Então isso já é uma pressão enorme e que é uma predisposição para adoecimento mental, né? O que que a gente deve fazer, né? Estudar todo dia, todo dia aproveitar esse tempo agora para o vestibular que tá perto, todo o esforço vale a pena agora, mas se cuidar, com cuidados. Final de semana ter o tempinho para você relaxar também, para você descansar, para você ter o seu lazer. Isso é super importante. Por quê? (...) Você é como se fosse assim, eu dou um reset para caber mais. É como se tivesse uma biblioteca o tempo todo colocando o livro dentro. E se eu não “reseto”, se eu não descanso, aquilo ali não se arruma na prateleira... Então esse descanso ele é muito benéfico pra saúde mental, se alimentar bem, fazer exercício físico, sabe? A meditação também ela é uma aliada muito grande. Pedir aos pais que acolham os filhos, não pressionem... confie no que vocês estão estudando. O resultado ele é consequência de esforço. Então, se eu me esforcei, eu preciso também do meu emocional para dar um bom resultado.
"É como se tivesse uma biblioteca o tempo todo colocando o livro dentro. E se eu não 'reseto', se eu não descanso, aquilo ali não se arruma na prateleira"
Matheus Simões (InformaDom) : E o colégio Dom, o corpo docente da escola em si, se prepara para lidar com esses alunos como ? E como é que o SOE funciona ?
Thina : O SOE é o serviço de orientação educacional. Pode ser uma psicóloga, pode ser uma pedagoga, pode ser uma psicopedagoga, alguém dessa área que vai ajudar as pessoas nas dificuldades de aprendizagem na vida acadêmica. Mas dentro dessa dificuldade, o emocional tá junto... o que acontece na sua mente afeta o seu corpo também. Então, a gente conversa com os alunos, conversa com o professor, vê como é que tá a vida acadêmica dele. Eu faço intervenção com os pais, converso com os pais. (...) A gente acolhe, acompanha e encaminha. A gente tem reuniões com outros profissionais que acompanham aquele aluno quando ele é neuro divergente, ele tem um laudo, precisa de algumas adaptações da escola para que ele siga, porque essas pessoas têm o direito de ser incluídas na educação. Se não, a escola vai ser só uma reprodutora de que a pessoa é incompetente, mas não é porque seja incompetente, é porque a escola não percebeu como o cérebro dele funciona para que ele avance.Além de que aqui no caso eu também dou aula, né? O Projeto de Vida, que começa desde o primeiro ano, é para que vocês possam ter um momento de aprender "eu comigo": quem sou eu, os meus sentimentos, minhas emoções. Eu com o outro: qual é o sentimento que eu tenho quando eu tô em grupo? (...) Quando a gente sai daqui no terceiro ano, são tantas perspectivas e inseguranças também. O Dom ainda é um espaço de conforto onde a gente é meio que uma família. Então a gente ajuda também a pegar na mão de vocês para que vocês passem e façam essa travessia com segurança, com equilíbrio. Vocês vão ter que se arriscar e ao mesmo tempo vem essa coisa boa de "tô conquistando coisas que eu quero agora". Se colocar como aprendizes da vida. Esse é o momento que o SOE trabalha: pegando na mão e fazendo com que o aluno evolua e vá para a vida.
Matheus Simões (InformaDom) : Para um aluno que pode estar se sentindo para baixo, pressionado, cansado agora nessa reta final ou até alunos de outros anos do ensino médio, como você acha que seria possível identificar a diferença entre uma fase ruim e uma verdadeira questão que precisa de um apoio profissional?
Thina : Bom, Tem uma coisa muito importante, que é tipo um termômetro que a gente pode estar olhando. Qual é o momento de buscar uma ajuda? Quando a gente percebe que isso tá interferindo na sua qualidade de vida, nas suas relações, no seu círculo familiar. Então, se eu tô vendo que eu tô com dificuldade de me concentrar nos estudos, eu já não tô me relacionando bem com aquelas pessoas... Porque tudo dá sinais, gente. Aquela pessoa se fecha no mundo dela, tem alguma coisa acontecendo. (...) Quando eu perceber que eu não tô mais dando conta sozinho, é hora de buscar ajuda técnica profissional. O trabalho com o psicólogo, com profissional da área de saúde mental é super importante. E às vezes a pessoa tá passando por uma coisa ainda mais grave, que precisa tratar também com medicação. Então é muito importante que a gente fique atento, inclusive para um colega da gente, tá? (...) Às vezes aquela pessoa que tá do teu lado, ela tá precisando de um apoio, de um suporte, né? Às vezes, quantas pessoas tiraram sua própria vida porque faltou aquele olhar de alguém que estava perto?"Ah, mas ele me pediu que eu nunca contasse, não dissesse que ele tá tentando se matar" Cara, você prefere um amigo morto ou um amigo vivo? Então, deixe ele ficar com raiva de tu, depois vai passar, ele vai entender que o que você fez foi para ajudá-lo. Então assim, sempre que você ver alguma coisa e chegar alguém com segredo para você sobre colocando em risco a própria vida, abra isso, traga, vá buscar pessoas que você confia.
Matheus Simões (InformaDom) : É ótimo você mencionar a questão da vida, do tirar da vida, porque agora no mês de setembro amarelo, né, a gente queria saber como o Dom lida com essa pauta que é tão atual e presente. Como a escola aborda isso na hora de educar os alunos?
Thina : É um tópico muito sensível e eu gostaria que a gente abordasse de uma forma mais ampla, né? Eu não concordo em não falar sobre isso. Acho que a gente precisa falar sobre isso, sabe? Às vezes a pessoa tá por um fio. A pessoa que comunica para você que ela vai se matar, ela necessariamente ela não quer fazer isso. Ela tá pedindo ajuda, tá pedindo socorro. E a gente não pode ignorar esse pedido, dizer: "Ah, isso é besteira, isso é frescura". É um tema extremamente sensível e que eu realmente gostaria da gente fazer algo mais profundo assim para ajudar mais pessoas.
Matheus Simões (InformaDom) : Que mensagem você gostaria de deixar pros alunos que já estão matriculados, e para aqueles que têm interesse de entrar no Dom, sobre como o colégio lida com o emocional?
Thina : Eu acho que é muito importante a gente saber para onde a gente vai e por que a gente vai. Eu tô aqui há 16 anos e digo uma coisa sem temer a minha fala: o Colégio Dom ele é diferenciado. O Colégio Dom ele tem uma empatia, ele tem um carinho, ele é afetivo. O Dom é esse local onde a gente pensa junto, onde a gente arquiteta junto. O Dom abre espaço para você ser você e para que você coloque em ação a tua criatividade no teu coletivo. Quem quer vir para o Dom, venha, experimente. É um espaço muito caloroso, é a segunda família da gente aqui. Vir pro Dom é abraçar um caminho que vai ser longo, mas a gente sabe que tem uma trajetória afetiva, amorosa e acolhedora para os que estão chegando e para os que já estão aqui.
"Vir pro Dom é abraçar um caminho que vai ser longo, mas a gente sabe que tem uma trajetória afetiva, amorosa e acolhedora"



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